Cidades São Sebastião

Estivadora conta um pouco da sua rotina no Porto de São Sebastião

Letícia Luiza Vieira Vargas da Silva, de 37 anos, nasceu em Caraguatatuba e aos 22 anos embarcou em um navio de passageiros que fazia a rota da costa mediterrânea. Um tempo depois trabalhou em uma empresa estrangeira offshore instalada em São Sebastião por quatro anos. “Eles tinham uma base no Porto e eram operadores portuários. Foi aí que passei a entender como o Porto Público funcionava e também os mecanismos das categorias, sindicatos e autoridades”, relembra.

Formada no curso superior de gestão empresarial pela Fatec, ela soube de um processo seletivo para trabalhar como TPA (Trabalhador Portuário Avulso) no porto de São Sebastião. “Havia somente duas vagas para minha categoria. Fiquei em terceiro e juntamente com os demais candidatos aprovados fui chamada para fazer os cursos obrigatórios para assumir as funções. Os primeiros colocados ingressaram em 2015. Eu fui convocada em 2017 para assumir o cargo”, conta.

Mais de uma década pós milênio e não existia mulher nessa função no Porto de São Sebastião, o que para Letícia e outras quatro colegas de trabalho é considerado um grande avanço. De um universo de 165 portuários, conforme informações da própria Letícia, as mulheres representam então 3% do total. As demais mulheres que trabalham nesse porto desenvolvem as funções de estivadora, conferente, arrumadora e consertadora de carga. “Quando a gente começa a trabalhar aqui entramos na condição de cadastro, mesmo sendo pelo processo seletivo. O cadastro é como se fosse um reserva do time”. O TPA que é considerado registro é que tem prioridade de pegar o serviço. A escala é feita por prioridades, primeiro os registros e depois os cadastros”, esclarece. No último dia 14/5, Letícia recebeu a notícia que deixou de ser cadastro e passou a ser registro. “Finalmente obtive o posto de registro pelas minhas horas de trabalho e meu esforço na função. Estou muito feliz!”

Como vigia de bordo, Letícia verifica as movimentações no cais, costado e todo entorno da embarcação. “Basicamente fico o tempo todo no portaló, que é o bordo do navio, onde tem uma escada de acesso para a embarcação, observando e verificando a rotina da operação, entrada e acesso de pessoas e materiais em geral. Prezo para que tudo esteja dentro da conformidade, sem nenhum incidente ou ocorrência. Ajudo na comunicação com as autoridades e órgãos de segurança. Os vigias são os olhos da operação”, revela.

Os portuários seguem uma modalidade diferente de trabalho. Enquanto houver navio que traga carga para descarregar ou embarcar eles trabalham e recebem por isso. Quando não há navios desse tipo, eles ficam em casa sem remuneração.

Letícia conta que em abril trabalhou todos os 30 dias do mês. “Nossa escala é de turno de seis horas, mas podemos trabalhar pela manhã e retornar à noite quando tem navios. Não somos regidos pela CLT(Consolidação das Leis do Trabalho) e nem pela lei do funcionalismo público. Somos resguardados pela Lei 12830, da modernização dos Portos Brasileiros.

Letícia é apaixonada pelo seu trabalho e luta para que as pessoas tenham mais informações a respeito do que é feito em um porto como o de São Sebastião. “O Porto cresceu no ano passado enquanto várias frentes de trabalho e outros campos entraram em decadência. Triplicou seu faturamento, isso porque tivemos muitas baixas de trabalhadores afastados devido a pandemia. O que significa que somos eficientes, além de fazermos parte de uma mão de obra muito especializada que é bem remunerada e por isso é motivada para o trabalho”, avalia.

Para ela, a presença do Porto deveria ser motivo de orgulho para os moradores da cidade e de toda a região. “Afinal de contas é graças aos portos de todo o mundo que temos 90% dos produtos que temos em casa, mas pouca gente sabe disso”, desabafa Letícia.